Siquismo

«A verdade é sublime, mas ainda mais sublime é viver de acordo com a verdade».

Sri Guru Granth Sahib – ang 62

O que é o siquismo?

O siquismo por vezes também designado por «sikhismo», é um caminho espiritual universal (para toda a humanidade) e monoteísta fundado por Guru Nanak no século XV na atual Índia, e na qual se proclama a igualdade de todos os seres humanos e se defende uma vida ética, honrada e de serviço aos outros, promovendo uma vida ativa na sociedade e rejeitando o ascetismo e o ritualismo vazio. O siquismo é um dos caminhos espirituais com maior número de fiéis no mundo, ocupando o quinto lugar a nível global na escala das religiões.

O termo «sique» é a adaptação para o português do termo panjabi «sikh» (a mesma palavra é usada em inglês), que significa simplesmente «aprendiz», e é que no siquismo se destaca a humildade e a atitude constante de continuar a aprender, a crescer e a aperfeiçoar-se espiritualmente.

Todos os seres humanos, independentemente da nacionalidade, raça, género ou classe social, podem ser siques («sique» no singular e «siques» no plural para se referir aos seguidores do siquismo), e é que a definição formal e ortodoxa do siquismo estabelece a definição de um sique da seguinte forma:

«Qualquer ser humano que acredite fielmente em:

– Um único Ser Imortal.

– Os 10 Gurus, desde Guru Nanak até Guru Gobind Singh.

– O Guru Granth Sahib.

– Os ensinamentos e declarações dos 10 Gurus.

– A iniciação instituída pelo Décimo Guru. e que não deva lealdade a nenhuma outra religião, é sique».

(Sikh Rehat Maryada)

O que afirma o siquismo

Algumas das máximas do siquismo seriam:

Um único Deus, criador e controlador supremo do Universo (não tem antagonista), sem ódio nem inimizade por ninguém. Deus não tem forma, nem género (não é masculino nem feminino), e está presente em toda a criação e, ao mesmo tempo, transcende-a (está também para além da criação). Também não desce para encarnar no mundo, é sempre e para sempre não nascido e sem morte.

Existem diferentes caminhos espirituais válidos para Deus, não há apenas um. Rejeição da ideia de que a salvação e a bênção de Deus só possam ser obtidas por uma religião ou caminho espiritual específico.

Igualdade entre todos os seres humanos, ninguém é superior, ninguém é inferior. Rejeição categórica do sistema de castas.

Doutrina da reencarnação. A alma não tem género (não é masculina nem feminina) nem está limitada a uma única forma corporal permanente, e permanece reencarnando no ciclo de nascimentos e mortes enquanto estiver dominada pelo ego e pelo apego. Este ciclo continua até que se consiga dissolver o ego e estar em plena conexão com Deus.

La libertação não depende de rituais externos nem de pertencer a uma religião concreta, mas da transformação interior através da lembrança de Deus, de viver uma vida correta e de obter a Sua graça, uma vez que a realização última não é apenas fruto do esforço humano. A verdade deve ser vivida, não basta proclamá-la.

Rejeito a prática da adoração de imagens ou idolatria, do ascetismo, dos ritualismos vazios e das superstições.

PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA VIDA SIKH

Os Três Pilares do Sikhismo

O siquismo ensina uma vida prática coerente com a sua doutrina, pois, se os princípios fundamentais da vida sique não forem postos em prática, o mero conhecimento espiritual não conduz à libertação. O siquismo rejeita o ascetismo e o isolamento da vida pública ou do mundo, e promove uma vida ativa e empenhada na sociedade, valorizando a honestidade, a compaixão e o serviço desinteressado aos outros. Os Três Pilares do Siquismo foram estabelecidos por Guru Nanak e são os seguintes:

Recordar o Nome de Deus (Naam Japna)

Naam Japna significa recordar o Nome de Deus e manter a mente voltada para Ele. No siquismo, esta prática ocupa um lugar central na vida espiritual, pois lembra constantemente ao ser humano que Deus está presente em todos os momentos e em todos os lugares. Não se trata apenas de repetir palavras ou realizar atos devocionais, mas de cultivar uma consciência constante da presença divina.

Esta lembrança do Nome deve acompanhar toda a vida do sique. Enquanto trabalha, convive com a família ou participa na vida social, o sique procura manter a sua mente ligada a Deus. Desta forma, a espiritualidade não se separa da vida quotidiana, mas orienta os pensamentos, as palavras e as ações.

O Naam Japna é praticado de diferentes maneiras. Uma delas é o simran, que consiste na repetição meditativa do Nome de Deus (como, por exemplo, «Waheguru»), seja em silêncio, em voz baixa ou alta, para manter a mente centrada Nele. O Naam Japna também é realizado através da recitação e do canto dos hinos do Guru Granth Sahib, de outros cânticos devocionais e por meio da oração pessoal.

Ganhar a vida honestamente (Kirat Karni)

Kirat Karni significa ganhar a vida de forma honesta. No siquismo, este princípio ensina que cada pessoa deve sustentar-se com o seu próprio esforço e evitar obter benefícios à custa da exploração dos outros, do engano ou da injustiça. O trabalho não é considerado apenas uma necessidade material, mas também uma forma de viver com dignidade e responsabilidade na sociedade.

Este princípio recorda que a vida espiritual não está separada da vida quotidiana. Para um sique, trabalhar com honestidade é uma parte importante da prática espiritual. Cumprir as responsabilidades profissionais, agir com integridade e respeitar os outros no âmbito do trabalho fazem parte de uma vida coerente com os ensinamentos do siquismo.

Kirat Karni também implica que o esforço pessoal deve ser acompanhado por uma atitude justa e ética. O trabalho deve ser realizado com honestidade, sem corrupção nem abuso, e com a intenção de contribuir para o bem-estar próprio, da família e da comunidade. Desta forma, o trabalho torna-se um meio para viver com retidão e para participar ativamente na sociedade.

Partilhar com os outros (Vand Chhakna)

Vand Chhakna significa partilhar com os outros aquilo que se possui. No siquismo, este princípio ensina que a riqueza, o tempo e os recursos não devem ser guardados apenas para benefício próprio, mas devem ser utilizados também para ajudar os outros. Partilhar faz parte de uma vida justa e solidária, e lembra que todos os seres humanos fazem parte da mesma humanidade.

Este princípio é posto em prática de muitas formas na vida quotidiana. Pode manifestar-se ajudando quem precisa, apoiando a comunidade ou dedicando tempo ao serviço altruísta. Na tradição sique, uma forma visível deste espírito é o langar, a refeição comunitária oferecida gratuitamente nos gurdwaras a qualquer pessoa, independentemente da sua origem, religião ou situação social.

Vand Chhakna implica também partilhar uma parte do que se ganhou com o próprio trabalho, geralmente 10% do salário recebido, quantia que pode ser destinada a algum projeto justo, a alguém necessitado ou a algum gurdwara. Desta forma, o siquismo incentiva a viver com generosidade e responsabilidade para com os outros. Ao partilhar com os outros, a pessoa aprende a superar o ego e a construir uma sociedade mais justa, baseada na igualdade, na solidariedade e no respeito entre todos.

Imagen del Templo Dorado

O Gurdwara

O TEMPLO SIKH

O gurdwara (pronuncia-se «gurduara») significa «a porta pela qual se acede ao Guru» e é o principal local de reunião e oração da comunidade sikh, onde quer que exista um. É um espaço aberto a todas as pessoas, sem distinção de religião, origem ou condição social. No centro do gurdwara encontra-se o Guru Granth Sahib, o livro sagrado do sikhismo, que é tratado como o Guru eterno e guia espiritual dos sikhs. É obrigatório que todos, ao entrar no gurdwara, tirem os sapatos e cubram a cabeça, em sinal de respeito ao Guru.

No gurdwara realizam-se a recitação e as explicações do Guru Granth Sahib, o canto de hinos sagrados (kirtan), bem como cerimónias religiosas do sikhismo; além disso, é um local ideal para a oração e a meditação.

Uma parte fundamental da vida do gurdwara é o langar, a cozinha comunitária onde é servida comida vegetariana gratuita a todos os visitantes que queiram comer. Sentar-se juntos ao mesmo nível e partilhar a mesma comida simboliza um dos princípios centrais do sikhismo: a igualdade entre todas as pessoas.

Guru Granth Sahib

Guru Granth Sahib

O LIVRO SAGRADO E O ATUAL GURU DO SIKHISMO

O Guru Granth Sahib é o livro sagrado e mais importante do siquismo e é reconhecido pelos siques como o Guru vivo e eterno; por isso, o Guru Granth Sahib não é considerado simplesmente um livro, mas sim o Guru que guia espiritualmente os siques.

O Guru Granth Sahib é uma compilação de hinos espirituais compostos pelos Gurus siques e por vários santos de diferentes tradições espirituais e religiosas. Os seus ensinamentos centram-se na devoção a um único Deus, na humildade, na igualdade entre todos os seres humanos e na importância de viver uma vida honesta e espiritual.

Embora os hinos do Guru Granth Sahib tenham sido compostos em diferentes línguas e formas poéticas, refletindo assim o seu espírito universal, todo o texto está escrito de forma homogénea na escrita Gurmukhi. O Guru Granth Sahib está sempre escrito com o alfabeto Gurmukhi e com os hinos intactos tal como foram transmitidos e compilados pelos Gurus, de modo que qualquer tradução do Guru Granth Sahib não é considerada como tal o Guru Granth Sahib, mas sim uma tradução do Guru Granth Sahib, e, como tal, não tem o mesmo estatuto nem tratamento.

imagen sobre los 10 Gurus sijes

Os Dez Gurus

OS PRINCIPAIS MESTRES ESPIRITUAIS DO SIKHISMO

Os dez Gurus do siquismo foram os mestres espirituais humanos que guiaram e desenvolveram a comunidade sique desde o século XV até ao início do século XVIII. Através dos seus ensinamentos, exemplo e liderança, estabeleceram as bases espirituais, sociais e éticas do siquismo, transmitindo uma mensagem centrada na devoção a um único Deus, na igualdade entre todos os seres humanos e na importância de viver uma vida honesta e comprometida com a justiça.

A sucessão de gurus humanos começou com Guru Nanak (1469–1539), fundador do siquismo, e continuou com mais nove gurus: Guru Angad, Guru Amar Das, Guru Ram Das, Guru Arjan, Guru Hargobind, Guru Har Rai, Guru Har Krishan, Guru Tegh Bahadur e Guru Gobind Singh. Cada um deles contribuiu para o desenvolvimento da comunidade sique, fortalecendo as suas instituições religiosas, a sua identidade e o seu compromisso com a liberdade religiosa e a justiça.

Antes de seu falecimento em 1708, Guru Gobind Singh declarou que não haveria mais gurus humanos e que o Guru Granth Sahib seria o guru eterno dos sikhs. Desta forma, a orientação espiritual do siquismo ficou para sempre depositada no Guru Granth Sahib e nos ensinamentos transmitidos pelos dez gurus.

Sij de la Khalsa frente al Templo Dorado

A Khalsa

A ORDEM DO IDEAL DO SANTO GUERREIRO

A Khalsa, que significa «a comunidade dos puros», é a comunidade de siques iniciados nesta ordem e que devem seguir, com disciplina diária, o caminho estabelecido pelos Gurus. Foi criada em 1699 por Guru Gobind Singh com o objetivo de formar uma comunidade comprometida com a fé, a justiça e a defesa dos oprimidos. Desde então, a Khalsa representa o ideal de viver com coragem espiritual, disciplina e dedicação a Deus.

Aqueles que fazem parte da Khalsa recebem a iniciação do Amrit e comprometem-se a seguir o Rehat Maryada, o código formal de conduta e disciplina sique. Entre os seus elementos distintivos encontram-se os Cinco K, cinco símbolos externos indispensáveis que recordam o compromisso com a fé e a identidade sique: o kesh (cabelo não cortado), o kangha (pente de madeira), o kara (pulseira de aço), o kachera (roupa interior tradicional) e o kirpan (adaga ou espada curva que simboliza a defesa da justiça e que é usada apenas para proteger a si próprio ou aos outros).

A Khalsa não é apenas uma identidade externa, mas também um ideal espiritual baseado na disciplina, na honestidade e no serviço aos outros.

O CREDO FUNDAMENTAL DO SIKHISMO

O Mul Mantra (Mool Mantra)

O Mul Mantra (escrito em inglês como «Mool Mantra») significa literalmente «O Mantra Raiz». É a declaração fundacional do siquismo e as palavras que abrem o Guru Granth Sahib, a escritura sagrada sique, constituindo assim os alicerces sobre os quais assenta toda a teologia sique.
Em apenas algumas linhas, o Mul Mantra responde à pergunta mais profunda que o ser humano pode fazer: o que é a Realidade Suprema? E fá-lo com uma certeza absoluta: ela é Uma, Eterna e nada existe fora dela.

Para o sique, recitar o Mul Mantra não é um mero ato intelectual, mas uma experiência interior. Cada repetição consciente aproxima o praticante do Real. Por isso, faz parte da oração diária antes do amanhecer, pode acompanhar o dia como um lembrete constante e está presente nos momentos mais significativos da vida sique, desde o nascimento até à morte.

A seguir, apresenta-se o Mul Mantra na sua língua original e uma tradução ortodoxa do seu significado para o português. É importante salientar que nenhuma tradução consegue transmitir com total exatidão o significado das palavras originais:


ਸਤਿ ਨਾਮੁ
ਕਰਤਾ ਪੁਰਖੁ
ਨਿਰਭਉ ਨਿਰਵੈਰੁ
ਅਕਾਲ ਮੂਰਤਿ
ਅਜੂਨੀ ਸੈਭੰ
ਗੁਰ ਪ੍ਰਸਾਦਿ ॥

Uma só é a Realidade Suprema,
Verdade é o Seu Nome,
O Ser que cria e tudo habita,
Livre de medo e de inimizade,
Cuja presença transcende o tempo,
Não nascido, existente por Si mesmo,
Realizado pela Graça do Guru.

ESCLARECIMENTOS SOBRE O SIKHISMO NA PRÁTICA

Perguntas e respostas frequentes sobre o sikhismo

Nesta secção, abordamos algumas das perguntas mais frequentes sobre o siquismo na prática, ao mesmo tempo que esclarecemos certas questões que muitas vezes geram confusão sobre o siquismo e a sua doutrina.

O siquismo é uma religião étnica ou universal?

O siquismo é, desde o seu início, um caminho espiritual universal aberto a toda a humanidade, independentemente da raça, cultura, nacionalidade ou género. No entanto, na prática atual, a imensa maioria dos siques é de origem punjabi (quase todos provenientes do atual Punjab indiano ou descendentes dessas famílias), pelo que a influência cultural punjabi é muito forte. Consequentemente, existem práticas e crenças difundidas entre muitos siques punjabis que são de caráter cultural ou étnico, mas que frequentemente são confundidas ou percebidas como parte do siquismo, quando na realidade não o são.

Além disso, atualmente quase todas as expressões artísticas e a música sique são em punjabi, devido ao facto de, atualmente, a maioria dos siques ser desta origem. Esta situação pode mudar à medida que pessoas de outras culturas e nações se aproximem do siquismo e o adotem de forma sincera, vivendo plenamente como siques a partir de diferentes culturas, pois o siquismo não exige, de forma alguma, que se renuncie à própria cultura para poder ser praticado e vivido plenamente, mas apenas àquelas práticas concretas que contradigam os princípios e a doutrina sique.

Siquismo em Português já está a trabalhar de forma desinteressada na criação de alguns recursos sobre o siquismo para os falantes de português, e apoia totalmente aqueles que se juntam a esta causa, em consonância com a doutrina dos Gurus.

É obrigatório usar turbante e deixar o cabelo crescer sem cortá-lo para ser sique?

A definição de sique baseia-se na fé nos Gurus, no Guru Granth Sahib e nos seus ensinamentos. Por isso, no siquismo existem diferentes níveis de disciplina adotados pelas pessoas que se identificam como siques.

Os sahajdharis (também chamados de sehajdharis) são os sikhs que se encontram num processo progressivo de adoção da disciplina sique (um processo que não tem um prazo definido e é algo individual), uma vez que ainda não adotaram plenamente todas as disciplinas externas. Neste processo, alguns já adotam práticas visíveis, como o uso do turbante, enquanto outros ainda não.

Os keshdharis são aqueles que já mantêm o cabelo sem cortar (kesh) como parte da sua disciplina.

Por fim, os siques da Khalsa são aqueles que receberam a iniciação e vivem a disciplina completa estabelecida pela tradição sique. Estes últimos assumiram um compromisso formal de manter o nível de exigência de toda a disciplina sique.

Ao mesmo tempo, o Sikh Rehat Maryada (o código de disciplina e conduta sique) estabelece, como parte da disciplina sique, a manutenção do cabelo sem cortar (kesh) e, no caso dos homens, o uso do turbante como forma tradicional de o cobrir e apresentar, sendo opcional para as mulheres.

Por conseguinte, uma pessoa pode considerar-se sique e começar a seguir o caminho do siquismo sem ter ainda assumido todas estas práticas. No entanto, estas fazem parte do ideal e da disciplina tradicional sique, e a sua adoção é entendida como parte de um processo de compromisso com a tradição sique.

O que é o Kirpan e por que razão os siques o usam?

É importante esclarecer, em primeiro lugar, que nem todos os siques usam um kirpan: o seu uso é obrigatório apenas para os siques iniciados na Khalsa (Amritdhari), que passaram pela cerimónia do Amrit Sanchar e se comprometeram para toda a vida com o seu código de conduta. Esta obrigação aplica-se indistintamente tanto a homens como a mulheres. Os siques não iniciados na Khalsa (que são a maioria) não são obrigados a usá-lo e não é habitual que o tenham, embora possam fazê-lo voluntariamente.

O kirpan é um dos Cinco K (Panj Kakar), os cinco símbolos de fé instituídos por Guru Gobind Singh em 1699, aquando da fundação da Khalsa. O seu nome une as ideias de kirpa (graça, compaixão) e aan (honra, dignidade), e responde ao ideal do Sant-Sipahi (guerreiro santo): o dever de cultivar a vida espiritual e, ao mesmo tempo, defender a justiça e proteger os oprimidos.Não é uma arma de agressão, mas sim um símbolo sagrado de moderação, dignidade e compaixão. A doutrina sique só permite o seu uso em legítima defesa ou em defesa de terceiros perante uma agressão injusta e proporcional, e nunca para agredir, intimidar ou impor-se a alguém.

Quanto à sua forma, trata-se de uma lâmina curva de um único gume, derivada do talwar (a espada curva tradicional indiana). O código de conduta sique não prescreve um tamanho específico: tradicionalmente era uma espada de tamanho normal (cerca de 76 cm), reduzida durante o período colonial britânico, e hoje é geralmente uma adaga com 12 a 30 cm (embora no Punjab ainda se usem kirpanes muito maiores). Quanto ao tamanho, coexistem duas posições: a mais prática, comum no Ocidente, aceita kirpanes muito pequenos (com poucos centímetros) por motivos legais e de discrição. A posição mais ortodoxa defende que, por mais pequeno que seja, deve continuar a ser um objeto funcional e não um mero símbolo.
É fabricado em aço ou ferro (não são materiais luxuosos) e é transportado embainhado, preso ao corpo por meio do gatra, uma correia que atravessa o ombro, normalmente por baixo da roupa.

Nos países onde o porte do kirpan é regulamentado pela legislação nacional, a comunidade sique tem sempre procurado o diálogo e a conciliação dentro do quadro legal.

Qual é o nome de Deus no siquismo?

No siquismo, a Realidade Suprema não tem um único nome próprio que a defina. Por ser infinita, não pode ser propriamente contida numa única palavra. Por isso, o Guru Granth Sahib refere-se a Deus com muitos nomes distintos, provenientes de várias tradições religiosas, como por exemplo: Hari, Ram, Gopal do hinduísmo; Allah, Khuda, Rabb da tradição islâmica; juntamente com outros adotados e consolidados pelo siquismo como Satnam (Nome Verdadeiro), Nirankar (Sem Forma) ou Ek Onkar (Uma só é a Realidade Suprema).

Os gurus siques ensinaram que todos os nomes apontam para a mesma Realidade Suprema, sem que nenhum deles possa contê-la por completo. No entanto, na prática devocional sique, o nome mais utilizado para se referir e invocar Deus é Waheguru, que pode ser traduzido como «Maravilhoso Destruidor das Trevas».

Waheguru é considerado o Gurmantra, o mantra principal concedido pelo Guru para a recitação e meditação constantes em Deus.
Assim, o siquismo não impõe um nome exclusivo para Deus, mas reconhece que toda a humanidade invoca, nas suas diferentes línguas e tradições, a mesma e única Realidade Suprema.

O que faço se não houver nenhum gurdwara perto de onde moro?

O gurdwara ocupa um lugar muito importante na vida dos siques, embora a realidade seja que, fora da Índia, há muitos locais onde são escassos ou simplesmente inexistentes. Por isso, onde não existem, um sique pode viver sem frequentar um gurdwara e até mesmo criar uma dharamsala, que é um local de encontro espiritual estabelecido por Guru Nanak e pelos primeiros gurus siques para que os fiéis possam reunir-se em comunidade e assim aprender os ensinamentos espirituais do siquismo, e até mesmo para acolher peregrinos ou organizar o langar, o refeitório igualitário sique. A dharamsala é a precursora do gurdwara e pode ser estabelecida por qualquer fiel sique com boa vontade e que respeite e não contradiga os ensinamentos do Guru Granth Sahib e da tradição sique ortodoxa, independentemente de saber ou não a língua punjabi ou de qual seja a sua nacionalidade.

No Sijismo em Português, apoiamos e promovemos firmemente a criação de dharamsalas em todo o mundo como forma de manter viva a prática espiritual e comunitária sique nos locais onde não existem gurdwaras.

Todas as crenças e práticas dos siques do Punjab fazem parte do siquismo?

A resposta é um não categórico. O povo panjabi possui uma cultura social específica, tal como qualquer outro povo do mundo, e essa cultura é assimilada pelos panjabis desde a infância, fazendo com que os siques panjabis (a maioria dos siques atualmente) a aprendam misturada com o sikhismo, sem por vezes saberem distinguir o que é cultural e o que pertence realmente ao sikhismo.

Convém também salientar que algumas práticas e crenças específicas seguidas por numerosos siques do Punjab são, na realidade, a persistência de elementos hindus na prática sique, fruto da enorme influência cultural hindu na Índia. Algumas destas crenças e práticas são mesmo contrárias aos princípios e à doutrina sique.

Tenho de saber ou aprender punjabi para ser sique?

Não, não é necessário que alguém que não seja punjabi e se torne sique aprenda a língua punjabi. É fundamental aprender a recitar o Mul Mantra na sua língua original, que foi escrito em punjabi. É um texto curto e simples, mas não é necessário aprender a língua para poder viver como sique.

Existem traduções do Guru Granth Sahib para várias línguas e há cada vez mais recursos genuínos na Internet em diferentes idiomas que ajudam a aprender o siquismo tal como ele é.

O siquismo é um caminho espiritual rígido e repleto de proibições?

Aqui é necessário fazer uma distinção entre os siques que não receberam a iniciação na Khalsa e aqueles que a receberam, uma vez que o nível de disciplina esperado é diferente.

Para aqueles que receberam a iniciação na Khalsa, existe um código de conduta bem definido, denominado «Sikh Rehat Maryada». Entre outras coisas, este código estabelece certas proibições destinadas a manter uma vida disciplinada e coerente com os ensinamentos dos Gurus. Entre elas encontram-se a proibição de consumir tabaco ou outras substâncias intoxicantes, beber álcool, consumir carne preparada através de sacrifício ritual (kutha), cortar o cabelo, bem como a obrigação de manter uma conduta sexual responsável no âmbito do casamento entre homem e mulher.

No entanto, o siquismo não se apresenta como um caminho baseado numa longa lista de proibições. Os seus ensinamentos colocam a ênfase em levar uma vida reta e consciente. Neste sentido, o siquismo rejeita práticas como o sistema de castas, a idolatria e a superstição, e condena qualquer forma de desrespeito pela vida humana, como o infanticídio e outras práticas que atentam contra a dignidade da pessoa. Também incentiva a evitar a exploração, o engano, a corrupção e a injustiça.

Em vez disso, promove uma vida baseada na lembrança de Deus (Naam Japna), no ganho honesto do sustento (Kirat Karni) e na partilha com os outros (Vand Chhakna).

O siquismo apoia o sistema de castas da Índia?

De modo algum, o siquismo não apoia o sistema de castas da Índia; na verdade, condena-o.

O sistema de castas da Índia tem origem nas tradições hindus, uma mistura de religiões que constitui a maioria há milénios em grande parte do subcontinente indiano. Esta hegemonia religiosa do hinduísmo influenciou enormemente a cultura da região, tornando-a tão profundamente enraizada que muitos muçulmanos e siques da zona praticam e apoiam um sistema de castas próprio, apesar de estas duas vias espirituais não terem nada a ver com qualquer sistema de castas.

Guru Gobind Singh, com o objetivo de neutralizar o sistema de castas da Índia, estabeleceu que os homens siques adotassem o nome «Singh» e as mulheres o nome «Kaur» após os seus nomes próprios, de modo a que todos os siques partilhassem uma identidade comum baseada na igualdade.

Qual é o símbolo que representa a religião sique?

O símbolo mais utilizado para representar o siquismo é o Khanda (☬), que é também o símbolo que representa a Khalsa. O Khanda é composto por uma espada central de dois gumes, que simboliza a verdade divina e a justiça, rodeada por um círculo chamado chakkar, que representa a eternidade e a unidade de Deus, e por duas espadas curvas chamadas kirpan, que simbolizam o equilíbrio entre a autoridade espiritual e a responsabilidade temporal.

O Khanda também aparece na bandeira sique conhecida como Nishan Sahib, que se encontra nos gurdwaras. Esta bandeira, de cor laranja ou açafrão, indica a presença de um gurdwara e simboliza a identidade e a comunidade sique.

Outro símbolo reconhecido como pertencente ao siquismo é o Ek Onkar ( ੴ ), que está escrito em punjabi e significa «Única é a Realidade Suprema».

O siquismo é intolerante ou condena os fiéis de outras religiões?

O siquismo é, entre os grandes caminhos espirituais e religiosos teístas, o mais tolerante e inclusivo. Enquanto outras grandes religiões ou caminhos espirituais proclamam ter o monopólio da verdade e/ou da salvação, e algumas das grandes religiões, nas suas doutrinas, condenam os crentes de outras religiões a um castigo eterno, o siquismo nega completamente a ideia de que a verdade só possa ser encontrada num único caminho espiritual, ou de que Deus tenha eleitos e que apenas aqueles que pertencem a uma religião específica possam alcançar a salvação.

Os ensinamentos do siquismo proclamam que Deus ajuda e abençoa todos os crentes sinceros, que existem santos genuínos em diferentes religiões e caminhos espirituais, e que a salvação não pertence a nenhuma religião ou povo específico.